Texto e imagens de Vanessa Balula
por Vanessa Balula
Com olhos de revista, ou melhor, Coza em Revista, acompanhei um final de semana da exposição O Francês no Brasil em Todos os Sentidos, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo e trouxe para esta edição mais um gostinho de França no Brasil.
A exposição marcou por seu pioneirismo cultural, por ter como tema uma língua e não apenas um movimento ou um autor, contando um tanto dos pontos de contato da língua francesa com a língua portuguesa verde-e-amarela. Suas conexões etimológicas, sua contribuição - que vai muito além dos vocábulos! - e sua influência em nossa cultura.
Para um momento "curiosidade na ponta da língua": entre os 9500(!) verbetes de origem estrangeira que adotamos por aqui, 5400 são de origem francesa - muito mais do que o brasileiríssimo tupi! Assim, não há como não afirmarmos que temos, sim, uma forte aproximação cultural com o crème de la crème da cultura mundial. Quer ver? Na poesia, Castro Alves se entrega como discípulo e leitor assíduo do também poeta Vitor Hugo. Na música, Cateano Veloso entoa como verso de "Alegria, alegria", livremente inspirado em trechos do romance "As Palavras", de Sartre - "(...) nada no bolso, nada nas mãos". Na dança, além do balé clássico, muitas de nossas danças regionais tem um quê parisiense: como o balancê e o anarriê da quadrilha de São João, que tiveram sua origem nos salões franceses com o 'quadrille' e o 'balancer', quando os casais marcavam o passo no mesmo lugar, balançando no ritmo da música, aguardando o anarriê ou 'arrière', como preferir! Estes foram diretamente trazidos pela corte de D. João VI. Este que, pelo que se sabe, não era lá muito fã de grandes bailes e sim dos grandes banquetes - como bon-vivant que era, devia se entregar às delícias que até hoje protagonizam os menus de nossos bistrôs: crème brulée, mousse, suflê, fondue, croissant, brioche, canapé, champignon, chantilly, pavê!
A moda por aqui pulsa em francês. E isso não só por acompanhar as tendências, acredite. Glamour, rolotê, crochê, lingerie, tricô, devorê, plissado, lamê, côtelé, bustiê, paetê, sutiã, peignoir e, quem diria!, a cambraia, que ganhou o Ceará e as suas rendeiras... tudo made in France.
De metrô, a decoração parou na estação mais próxima e nos trouxe o matelassê, capitonê, biscuit, voile...
Os provérbios que fazem parte da nossa história são um capítulo à parte - acredite, também em francês! "L´habit ne fait pas le monde", por aqui como 'o hábito não faz o monge', "Le soleil luit pour tout le monde" como 'o sol nasce para todos' e mais dezenas deles, como o que não poderia faltar: "On n'est jamais trop vieux pour appendre", 'nunca é tarde para aprender'.
A expo ganhou - e muito! - com o trabalho do pessoal da Catavento Design Gráfico e a cenografia de André Cortez, que deu ao fluxo linguístico e cultural uma visão dinâmica, lúdica e inovadora. Cortez transformou todo o andar das exposições temporárias em espaços interativos e totalmente diferenciados, como o Gabinete das Ciências, o Corredor dos Poetas, o Trânsito das Palavras, o Painel Histórico, o Boulevar dos Falsos Amigos, o Balé, a Quadrilha, a Moda, o Metrô, o Bistrô, até a História das Palavras - contada em vídeo pela linguista Henriette Walter . A surpresa se estendeu a quem deu uma passadinha nos toillets, que também tiveram seus espaços tomados pelo clima, com pichações em francês e português adesivadas em suas portas e ainda com o som em off de um mulherio conversando em francês - típicas conversas entre amigas de frente a um espelho: "passa o batom, o ruge, o telefone do bonitom".
O Francês no Brasil em Todos os Sentidos no Museu da Língua Portuguesa - Praça da Luz, s/nº. Até 8 de novembro.
Edição e redação - jornalista responsável: Vanessa Balula coza@grafia.com.br
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