por Vanessa Balula
Altair Martins, jovem escritor gaúcho traz na bagagem palavras e imagens que extrapola o que se espera de um homem de seus 30 e poucos anos. Bacharel em Letras, Mestre em Literatura Brasileira, pai de Santiago e Manuela, marido de Márcia, professor universitário, sócio e professor de curso pré-vestibular e escritor. E, goleiro no futebol sociate com os amigos. Todo o tempo ainda parece pouco para Altair que faz do dia um intervalo de tempo infinito, com muitas horas dobradas.
Como escritor, estreou com a antologia de contos "Como se moesse ferro", seguida de "Se choverem pássaros". Pela estrada já conquistou importantes prêmios como contista: o Guimarães Rosa da Radio France Internationale, o Prêmio Luiz Vilela, o Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães e o Prêmio Açorianos.
Com seu primeiro romance "A Parede no Escuro", pela Editora Record, acaba de conquistar o maior prêmio literário do país - o Prêmio São Paulo de Literatura. Em Porto Alegre, Altair conversa com a Coza em Revista sobre a importância da imagem em seu trabalho como escritor. Sua literatura ganha o mundo. E seu mundo se desdobra em outros tantos. Por essas e outras, puxamos pra conversa Altair Martins.
Coza em Revista: A imagem - em detalhes e descrição de cenas - é algo muito presente em suas obras. Desde em contos como A imagem - em detalhes e descrição de cenas - é algo muito presente em suas obras. Desde em contos como 'Humano' onde se lê: "(...) Pois que naquela noite quente ele sentiu-se tão humano quanto a casca do fruto do limoeiro", quanto em seu romance "A Parede no Escuro". Nos fale sobre esta forte presença da imagem em sua literatura.
Altair Martins: Desde meus primeiros textos, a presença do pictórico é bastante forte. Creio que sou um pintor ou desenhista covarde. Já fiz charges, já pintei quadros e paredes. Acredito no uso do plasticismo como forma de textualidade, tanto que, a meu ver, ainda hoje os livros estão atrasados demais em relação a outras formas paralelas de escrita, como as revistas, os sites e os jornais. Meu próximo texto vai explorar a visualidade no nível textual e metatextual (no conteúdo e no corpo do texto).
Coza em Revista: Arrisco a dizer, como leitora, que suas histórias são escritas para serem vistas; têm cor e "tomam" espaços. O que mais lhe mobiliza: cenas, imagens ou a linguagem propriamente dita?
AM: Gosto de imagens, pedaços de imagens. Às vezes, são as imagens que comportam textualidade; outras, a linguagem pede para ser vista. Como literatura, o papel da palavra, nesse sentido, é de potencializar: fazer ver o que está escondido. Como meu sentido primordial é o ver, busco aperfeiçoá-lo. Em tudo o que faço, estou colhendo sucatas visuais, elementos de composição. Caminhar é o meu ateliê.
Coza em Revista: As imagens produzidas pelo seu texto invadem o seu dia a dia a ponto de "reconhecer" um cenário real como sendo de um personagem?
AM: Sim. Busco, como disse, recolher cores e formas. Guardo perfeitamente o tom de uma cor, a ponto de acertar a tinta sem a referência. Na criação literária, por vezes, a coerência interna se impõe, e cenários e personagens vão se constituindo, mais racionais que nos sonhos, por associações. Assim, é comum encontrarmos cenários e pessoas ?reais? que completam aquilo que falta na ficção.
Coza em Revista: Fale um pouco sobre o processo da imagem de capa do seu último livro.
AM: Bem, para "A parede no escuro", pedi a um amigo, o gravador Rodrigo Pecci, que ilustrasse passagens do romance. Como o Rodrigo é um artista de mão sutil, captou o espírito do texto (mais do ritmo e da atmosfera que do enredo). O desenho de capa me levou a imaginá-la, e a concebi mentalmente como preta, com letras ocres. A editora compôs algo parecido sem me consultar, mas com letras vermelhas. "Ficou um cartaz de filme de terror", eu disse. Pediram que eu sugerisse a cor das letras: "ocre", respondi. A capa, por fim, é muito próxima daquela que eu imaginei. Coisas de alguém que constrói para dentro.
Sobre o romance 'A Parede no Escuro' _ personagens que expõem e expiam suas culpas e sentimentos de perda. Duas famílias, repentinamente, ficam sem a figura paterna. E assim seguem os desastres do amor, os infernos particulares, as cenas da vida cotidiana, a condição humana. Sua linguagem destaca a angústia, as esperanças e sonhos dos seus muitos narradores.
Outras obras do autor: "Como se moesse ferro" e "Se choverem pássaros".
Altair Martins é representado pela AgênciadaPalavra.
Edição e redação - jornalista responsável: Vanessa Balula coza@grafia.com.br
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