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Quinta, 08 de marã§o de 2007

NATURALMENTE ARTE

A partir de suas viagens e experiências em diferentes comunidades do Brasil, Colômbia, México, Uruguai e outros países, a artista plástica Heloísa Crocco procura, em seu processo criativo, refletir acerca da natureza e das culturas próprias de cada lugar. Ela acaba de chegar de Paris, onde visitou o Museu do Quay Branly, definido como o museu do olhar sobre o Outro. Agora em março, Heloisa segue para o México, onde vai representar o Brasil em uma reunião da Rede Defacto/Unesco. Logo depois, a artista desembarca em Aimorés, Minas Gerais, no Instituto Terra, do fotógrafo Sebastião Salgado. Lá, o tema é a Mata Atlântica e a revitalização da flora, fauna, ar, água ambiente ecológico e humano. O trabalho de Heloisa com o Instituto Terra visa acordar o potencial criativo dos artesãos de uma comunidade próxima ao Instituto, criando novos produtos com inserção maior no mercado e gerando trabalho e renda. "Um projeto ímpar com uma dimensão de consciência do planeta incrível", explica a artista.

Heloisa é de Porto Alegre e vive na cidade. É graduada em Desenho pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mas os cursos de criatividade com Tom Hudson, realizados na Inglaterra, e de tapeçaria com Zorávia Betiol e Elizabeth Rosenfeld foram decisivos na sua formação e no desenvolvimento do seu gosto pelo artesanato. Seu nome hoje é um dos mais reconhecidos do design-artesanato no país, pela consistência e coerência de seu trabalho.

Para comprovar a solidez de sua obra, basta observar a natureza de seu habitat: seu ateliê fica às margens do Rio Guaíba, numa casa-caixa feita em madeira de reflorestamento, matéria-prima fundamental também de sua obra. O local transformou-se num centro de debate sobre o design brasileiro. Lá, a artista mantém o Laboratório Piracema de Design, criado por ela e pelo artista José Alberto Nemer, para catalisar ações que vêm sendo desenvolvidas no campo da produção artesanal, além da capacitação de profissionais. As ações do Laboratório têm o objetivo de trazer para o design o conhecimento da tradição e ampliar o artesanato como atividade auto sustentável.

Em 1986, Heloisa Crocco fez sua primeira incursão pela Floresta Amazônica. Desde então, seu trabalho como designer tomou uma direção peculiar e Heloisa nunca mais parou de pesquisar as texturas e desenhos da natureza. Ela explora as árvores nativas da mata brasileira, os veios formados em cada uma das espécies, serrando os troncos das árvores com diferentes tipos de cortes e organizando os pedaços cortados em diferentes composições. Assim nasceu, na década de 80, o projeto Topoformose, ou o ato de dar forma (morfose) ao cume (topo) da madeira. O projeto ganhou o 1º lugar na Categoria Materiais de Acabamento de Moradia do 8º Prêmio Design Museu da Casa Brasileira e foi tema de uma exposição individual em Osaka, Japão, em 1990.

Projeto Topoformose
No Topoformose, cada obra tem uma combinação que resulta num grafismo singular, fazendo referência à arte indígena e popular ou aos princípios do construtivismo. As combinações são expostas em forma de painéis ou aplicadas em objetos do cotidiano, multiplicando as possibilidades gráficas, cromáticas e de texturas das peças. Na série Aparas Cruas, por exemplo, os painéis compostos de pequenos pedaços de madeira possibilitam novas formas de olhar os grafismos naturais. A série Texturas destaca o aspecto sensorial de cada peça, como se pudéssemos sentir no toque as nuances da madeira. A Coleção Brasileirinha, uma série de painéis formados de aparas com aplicação de tecidos bem brasileiros, como a chita, que reforçam o impacto visual e a força poética da obra.

Numa outra etapa evolutiva do projeto, a artista estampou uma série de produtos utilizando o topo da madeira como matriz. Alguns desses desenhos foram utilizados em uma linha de produtos da Tok & Stok, sendo estampa para objetos como louças e roupa de cama. Com o tempo, o projeto Topoformose transformou-se num modelo de pensamento, criando metodologia de pesquisa da forma e suas aplicações no design. Para Heloisa, a arte contemporânea está intimamente ligada ao respeito ambiental. "A nova ordem é o reaproveitamento, temos que ter a consciência de que devemos cuidar da nossa grande casa, o planeta. Mais que uma tendência nas artes, isto é uma decisão".

Revitalização
Heloísa contribui com seu talento e iniciativa para o resgate da cultura e o desenvolvimento de produtos artesanais próprios das comunidades ou regiões por onde anda, implantando programas de revitalização com características específicas para cada uma delas. Depois de ter realizado um trabalho semelhante em uma comunidade da Colômbia, Heloísa foi convidada pelo artista plástico José Alberto Nemer para dirigir a oficina de Design e Artesanato no Festival de Inverno de Ouro Preto, em Minas Gerais. Isso aconteceu em 1993.

No Rio Grande do Sul, o programa Mão Gaúcha, que resgata a produção artesanal da região, foi lançado em 1999 e é coordenado por Heloísa com iniciativa do SEBRAE/RS. Na fronteira do Estado, o Projeto Lã Pura, também coordenado por ela, já está na sua segunda edição. No final do ano passado, Heloisa trabalhou com as mulheres quebradeiras de coco babaçu do Bico do Papagaio, em Tocantins, que aproveitam a matéria-prima para fabricação de artesanato, alimento, sabão, cobertura para a casa e outros subprodutos. Outro trabalho interessante foi com a comunidade de Maragogipinho, que é considerada o maior centro de produção de cerâmica artesanal da Bahia e ser um dos maiores pólos da América Latina. Um trabalho que, além de contribuir para uma distribuição de renda mais justa e promover a inclusão social, preserva a natureza, a cultura e as tradições.

Para saber mais: www.heloisacrocco.com.br

Por Adriana Martorano

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