Em 2003 o artista plástico Javier Barilaro e o escritor Washington Cucurto criaram, em Buenos Aires, o projeto Eloísa Cartonera – um coletivo que trabalha e divulga arte e literatura com a participação de catadores de papel e filhos de catadores. Eloísa Cartonera é reconhecido em vários países por sua atuação artística e social.

Uma iniciativa-irmã, nasceu no Brasil em 2007, e foi batizada como Dulcinéia Catadora. Ganhou novos rostos que, hoje conhecemos pelo trabalho de Lúcia Rosa, que já se entende e se sente: catadora-Lúcia-Dulcinéia-Lúcia-catadora – uma artista plástica paulista apaixonada.

Os pincéis ficaram de lado por uns quinze anos e enquanto isso Lúcia foi descobrindo outras matérias: ferro, resina. Na busca de novas texturas e materiais, um encontro: catadores do ABC Paulista. Uma nova paixão: o papelão. Assim nasceu o Coletivo Dulcinéia Catadora: “mais que um grupo formado por artistas, fotógrafos, jornalistas, jovens filhos de recicladores, grafiteiros, adultos com história pregressa de situação de rua que escrevem e escritores. É um coletivo de pessoas que se unem pela diferença; pessoas com origens étnicas, credos, formações, modos de vida diversos.”

O Coletivo tem relação direta com o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis – que, coordena cooperativas em todo o país e com isso busca dar dignidade ao catador. Dar corpo e voz ao seu trabalho de reciclador. É deste trabalho que o Coletivo se alimenta. É do material descartado que sua arte se faz.“É chegar à porta e saber que lá é o ateliê do Dulcinéia Catadora. Nenhum outro ateliê cheira a papelão.”, diz Lúcia-Dulcinéia.

O material descartado chega às mãos dos catadores impregnados de história pra contar com suas marcas, rasuras, dobras e impressões, que recebem spray, guache e arte. Esse papelão é transformado em livro “escrito” por muitas mãos.

Aos participantes do Coletivo cabem as capas dos livros. Escritores são convidados a participar com seus textos – que mais tarde serão impressos em papel reciclado. Em um dia a dia que Lúcia descreve assim: “viver o fazer artístico com o outro, a troca acalorada de palavras e às vezes até sentir o calor dos corpos unidos (quando não apertados) em volta das mesas do ateliê. Não escapam disso descuidados esbarrões com o pincel cheio de tinta, camisetas carimbadas de vermelho, azul e mais, o chão cheio de restos de papelão, com seu cheiro inconfundível.”

Cada etapa da feitura do livro tem suas peculiaridades. Os moldes dos títulos são feitos por toda a trupe do Dulcinéia – alguns livros chegam a ter 5 moldes diferentes, além da pintura de fundo.

Não há regras nem convenções. O que guia esses artistas são os seus olhares sobre o mundo. São muitas as formas de expressão artística: ilustrações, pinturas, grafite, xilogravura…

A saber que os livros não são o produto fim do Coletivo, e sim um dos resultados de seu trabalho. Ao ser proposto um projeto, ele vem acompanhado de um universo de possibilidades: oficinas criativas, atividades em grupo, mostras de arte, instalações-oficinas, intervenções urbanas… “Nossas intervenções chamam a atenção para o papelão: andamos pelas ruas com uma “capa” de papelão pintada, onde penduramos nossos livros. Com megafone, declamamos poesias de autores que colaboram com o Dulcinéia. Isso causa uma perturbação, rompe com os acontecimentos esperados do cotidiano. Divulgamos a literatura a alto e bom som. Literatura para todos, poesia nas praças públicas, pelas ruas, para quem quiser ouvir.”, afirma Lúcia que nos faz compreender que o lugar do trabalho com o papelão é nas ruas. Lado a lado com os catadores.

O bacana do Coletivo é a sua proposta auto-sustentável. O projeto é mantido pela renda gerada com o cachê de trabalhos artísticos e a venda de livros. Não dependem de doação ou patrocínio. Função social levada a sério.

Como se não bastasse a questão social e artística, o projeto tem uma forte atuação política. Além das intervenções urbanas, tem-se questões de ordem prática, como a quebra das cooperativas de catadores formalmente constituídas. Um dado concreto? Desde 2008 o preço do quilo de papelão caiu absurdamente; hoje, empresas recicladoras tidas como eco-sócio-conscientes, pagam apenas R$ 0,20 centavos/kg de papelão e com isso impedem o crescimento e a autosustentabilidade dos grupos de catadores. Enquanto isso o Dulcinéia estreita o vínculo e fortalece o trabalho dessas pessoas que recolhem o papelão das ruas, das portas de supermercados, dos galpões de fábrica. Com a renda do Coletivo é possível comprar o papelão dos catadores ou de suas cooperativas por 5x mais o que conseguem pelo quilo junto às empresas.

E como-se-não-bastasse (de novo): com esse trabalho muito dos participantes do Coletivo passam a se interessar – profissionalmente! – por arte, fotografia, música e literatura.

O catálogo produzido pelo Coletivo tem autores de toda sorte: Marcelino Freire, Xico Sá, Manuel de Barros, Altair Martins, Monique Revillion, Tatiana Belinky, Jorge Mautner e mais uma patota quentíssima.

O pessoal do Coletivo também recebe pedidos de novas edições.Pode chamar: Lúcia atende, sorridente, por Dulcinéia Catadora.

Para ficar na cola de Dulcinéia – vá para as notícias.

Para conhecer outros selos Cartoneras pelo mundo: Animita Cartonera (Chile), Eloísa Cartonera (Argentina), La Cartonera (México), Mandrágora Cartonera (Bolívia), Sarita Cartonera (Peru), Yerba Mala (Bolívia), Yiyi Jambo (Paraguai).

O Ateliê Dulcinéia Catadora fica na Rua Padre João Gonçalves, 100. Para visitar agende pelo telefone (11) 81980252.

Enquanto isso no Ipod: Chico Buarque com a canção “Todos Juntos” (http://) do musical Saltimbancos.

por Vanessa Balula